sexta-feira, 16 de março de 2012

Amizade Profissional na Imprensa

É jornalismo ou amizade?

Marluci Martins é Jornalista do Jornal Extra

  • O toque do celular interrompeu a boa conversa numa mesa de peso que reunia Moacyr Luz, Paulo César Pinheiro, Baiano, Marcelo Moutinho e Hugo Sukman. Péssima hora para tocar, mas se alguém me chama, estou aí, para o que der e vier, mesmo sob o risco de a pressão do chope encolher até desaparecer diante dos meus olhos e paladar. Identifiquei o nome do interlocutor no visor do telefone e, imediatamente, troquei o papo musical e a espuma gelada da tulipa pela grosseria que ouviria em seguida.
  • - Estou te ligando pra dizer que você é igual a todos. Pensei que você fosse diferente, mas você é igual - disse-me, pausadamente, em raivosas sílabas.
  • Tentei falar, mas era impossível.
  • - Não, quem vai falar sou eu! Eu vou falar - decretou, contando com a minha educação e paciência, ainda que a espuma do meu copo àquela altura já começasse a ser dissolvida.
  • - Encontrei por acaso com você, semana passada, na orla da praia. Falei uma coisa pra você. Você escreveu no jornal. Vocês são todos iguais. Agora, todo mundo está me ligando - reclamou.
  • Quando, enfim, o interlocutor decidiu que era a minha vez de falar, tentei manter a calma, a educação, a coerência, a humildade e tudo aquilo que a gente perde quando é atacado sem merecer.
  • - Sou jornalista. Notícia é notícia, na orla da praia, no campo de futebol, no telefone ou onde quer que seja. Você não me pediu off. Após nossa rápida conversa na orla, fui ao treino do seu time tentar conversar com você, mas me disseram que não era o seu dia de falar (sim, agora é assim!). Então, te liguei, deixei recado, você não retornou. Está me ligando com três dias de atraso - argumentei.
  • E, quando o interlocutor determinou que era hora de desligarmos, voltei para o chope, já quente e sem pressão, e para a boa conversa com os amigos. Mas já não me saía da cabeça as bobagens que eu acabara de ouvir, mas que certamente não foram as últimas. Será que o jornalismo esportivo vai andar de mãos dadas com atletas e fontes, submisso a eles, com o rabo entre as pernas e tão pequenininho?
  • Aquele homem, que dias antes se recusara a atender minha ligação - quando eu apenas queria fazer uma apuração -, era o mesmo que me telefonaria três dias depois para reclamar por eu ter publicado algo que o incomodou, como se eu fosse sua assessora de imprensa. Como se eu tivesse a obrigação de medir o que seria conveniente para sua vida profissional e pessoal.
  • Foi-se o tempo em que as mentiras publicadas incomodavam. Agora, o que dói é a verdade que se escreve. Pra mim, jornalismo (com isenção) é isso. Qualquer outra coisa é nota oficial. Aí, não é comigo.
  • Desculpem o desabafo.
  •  
  •  Marluci Martins

  • http://extra.globo.com/esporte/extra-campo/ 

  • Observação do blog: O fato acontecido com a colega  Marluci Martins é muito comum no nosso dia-a-dia, mais do que se possa imaginar. Dirigentes, empresários, jogadores e técnicos, aproximam-se de jornalistas com o propósito de tirar proveito da amizade, receber elogios, evitar críticas e  que tentam fazer através da amizade com que o profissional  seja na pratica seu assessor de imprensa,  para esconder as coisas ruins e divulgar só as boas. O jornalista depende de fontes e para tê-las precisa ter também um bom relacionamento com todos no meio do futebol. Uma boa fonte, nem sempre é um bom amigo. Do mesmo jeito que a fonte pode achar que está usando o jornalista, o jornalista pode usar a fonte para conseguir o objetivo dele. Amizade verdadeira no futebol e  na imprensa existem, mas são raras. Amizade por interesse, não é amizade verdadeira, mas sim,  uma amizade profissional, nada mais que isso.

Nenhum comentário: